Ilustração: José Ponte (www.pro-ponte.com).

Na faculdade de Direito, inevitavelmente, tive mais contato com o conceito de “cidadão” quanto até então. Dos 18 aos 21, eu não tinha ideia de que essa definição do Estado protegia antes o Estado do que o próprio cidadão. E assim, durante a graduação, usei o termo, acreditando na simetria proposta entre direitos e deveres. Até conhecer melhor o comunismo de Lenin, o fascismo de Mussolini e o nazismo de Hitler. E perceber uma cultura adequada à nacionalidade via cidadania. Mas, “que cultura é essa?”, me perguntei e continuo a questionar ao me esbarrar (ou me integrar?) nas versões contemporâneas dessas catástrofes sociais. Afinal, cultura não é para todos? É só lembrar de quando quase toda cidade tinha um cinema chamado “Paratodos”. Não estou falando de óperas ou cassinos, mas de um lugar para todo mundo (e não apenas para o cidadão). Perceba o poder da cidade. Porque, às vezes (melhor: muitas vezes), acho que nem ela sabe que tem. Ou, prefere abrir mão, por temor a represálias ou mesmo preguiça: é mais fácil se desculpar com eleitores do que se assumir epicentro ecológico, social e econômico. Do que se enxergar o tremor da Terra: onde nascemos, crescemos, nos desenvolvemos, multiplicamos e morremos. A cidade tem e é vida: “Vamos fazer nosso dever de casa/E aí então vocês vão ver/Suas crianças derrubando reis/Fazer comédia no cinema com as suas leis”. A “Geração Coca-Cola” é contra o cidadão, já cantava Legião (Urbana). Digo, quanto à cultura cidadã. Explico: Andy Warhol defendia a Coca-Cola como o “paratodos” norte-americano por excelência e, talvez, até o único. Ela é bebida de e por milionários, celebridades, mendigos e marginalizados, sem distinção. Há 33 anos, num janeiro como este, a música difundiu, o conceito do que convencionamos chamar de “Geração Coca-Cola”. Antes, era sinônimo para as garotas que se apaixonavam por gringos no Cassino Estoril da Praia de Iracema. Primeira casa da orla. Tinha piscina, a Vila Morena da Praia dos Peixes. O mesmo disco, também vendeu bem “Será” e, por mais que eu tenha o que dizer, não ressoaria como “Nos perderemos entre monstros/Da nossa própria criação/Serão noites inteiras/Talvez por medo da escuridão/Ficaremos acordados/Imaginando alguma solução/Pra que esse nosso egoísmo/Não destrua o nosso coração”. Note: a cultura, como Direito, é assimétrica, porque não pressupõe necessariamente uma obrigação – nem por parte do Estado, o que torna, cada vez, mais complexo, equilibrar o local com o global. Mas, tenho uma pista para montar o quebra-cabeça dos nossos trópicos utópicos: qual o “paratodos” brasileiro por excelência? Melhor: o que tem para todos em Fortaleza?

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A coluna “Aldeia Glocal” é publicada no Tribuna do Ceará, às quartas-feiras, e vai ao ar na Rádio Tribuna BandNews (FM 101.7), às 9h10 e 18:10h.

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