Foto: Flávia Castelo.

Esta semana, lembrei de um amigo que mora em Berlim. Especificamente, de quando me contava sua experiência como voluntário dos refugiados abrigados no antigo aeroporto Tempelhof: era incrível perceber como ele aprendia com quem não tinha muito mais do que esperança na vida. Deitada no maior parque da cidade, eu ouvia sobre sua ocupação popular depois da desativação, e sobre ter sido considerado “a mãe dos aeroportos modernos”: outro amigo, que, também morou por lá, contou que aquela arquitetura nazista atravessou as duas grandes guerras, recebeu um avião a cada noventa segundos em seu auge e, que apesar de ver a derrocada de Hitler, teve, como momento mais dramático, a maior ponte aérea da história – o transporte diário, por onze meses, de duas toneladas de carga, que matou a fome local e frustrou a ideia de Stalin de evitar o trânsito dos Estados Unidos, da Inglaterra e da França, quando bloqueou todos os acessos rodoviários e ferroviários da capital alemã.

Acho que pensei nisso tudo porque li a notícia da Deutsche Welle sobre os pilotos alemães que se recusaram a participar de deportações. O jornalismo independente anunciou que mais de duzentos voos planejados foram interrompidos por oficiais que não querem fazer parte do controverso retorno de migrantes ao Afeganistão. A alegria ao ler a matéria me fez voltar, imediatamente, a Berlim, mas minhas lembranças foram, também, da nossa história: a da Terra da Luz. Das luzes de liberdade e não do sol. Da liberdade gritada por Chico da Matilde, tal qual a das vozes que vem se recusando a piorar a vida dos migrantes que tiveram seus pedidos de refúgio rejeitados: quando Dragão do Mar anunciou que “No porto do Ceará não se embarcam mais escravos”, podia até suspeitar de sua influência na antecipação da abolição dos escravos no Brasil, mas não sei se na atemporalidade da dignidade humana que fez uma linha direta entre a liberdade aos negros e a Tempelhofer Freiheit (em português “Tempelhof Liberdade”), para brindar à liberdade que os pilotos exerceram. Liberdade pra dentro da cabeça. E do coração.

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A coluna “Aldeia Glocal” é publicada no Tribuna do Ceará, às quartas-feiras, e vai ao ar na Rádio Tribuna BandNews (FM 101.7), às 9h10 e 18:10h.

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