Ilustração: José Ponte (http://www.pro-ponte.com)

Em tempos de “bandido bom é bandido morto”, não podemos iniciar o filme de nossas vidas escrevendo “qualquer semelhança com a realidade é mera coincidência”. Melhor seria com Umberto Eco e suas questões filosóficas sobre a possibilidade de uma definição da arte: ele fala da maneira como ela se coloca para as estéticas contemporâneas, da impossibilidade de enquadramentos – inclusive, ou, principalmente, normativo-burocráticos, traz consciência da historicidade de tudo que conseguimos correlacionar com a formulação do que ela significa e arremata com a irrupção das experiências artísticas do nosso século.

Quando nos utilizamos dos discursos moralistas para o hasteamento da bandeira conservadora (é só citar qualquer caso de censura de exposição de arte sob a égide da degeneração), ou levantamos paredes intra- e interespécies, lembro muito minha filha, quando pequeninha: ela acreditava que era só fechar os olhos para desaparecer, quando brincava comigo de esconde-esconde. Estamos fazendo exatamente a mesma coisa: seja na cerca erguida entre Quênia e Somália que confronta quem foge da fome e encontra o terror; no muro da vergonha que separa indígenas e gringos no Peru; na barreira entre Cisjordânia e Israel, construída ‘para trazer segurança’ e que aparta vidas e memórias; ou na fronteira, não só de expectativa e ressentimento, entre EUA e México, que atormenta quem não consegue atravessá-la: tampamos o sol com a peneira, ao hierarquizar pessoas, da mesma maneira, que antropocentricamente, separamos as espécies. Seguimos acreditando em limite para a arte e nos comportando como se a natureza fosse infinita (está parecendo que a humana é). Tudo isso, sem medo de que esses castelos construídos sejam tão frágeis quanto os de areia – aqueles que fazemos na praia. Solitários. E que a maré alcança e o tempo deixa para trás, mas não sem marcar a história, com seus tristes traços de que o homem e o rio continuarão os mesmos.

Na roda gigante em que a arte imita a vida e a vida imita a arte, Picasso já disse que a arte é uma grande mentira. Mentira que nos faz perceber a verdade. Será, então, uma fraude mágica? Que subverte significados, coloca o senso comum contra a parede e muda o ponto de vista várias vezes? Essas mentiras sinceras de Cazuza, cantadas, de outra forma, por Raul Seixas, inscrevem a lição de “quem não tem visão, bate a cara contra o muro”.

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