“Preciso me desacostumar a viver fora da vida.

Acabei de dizer isto a uma amiga. Ela, retornando do surf – manhã cedo, quatro ondas e a voz gravada – tinha tanta endorfina e serotonina que doeu. Doeu porque me vi o que deixei pra trás quando ‘cresci’: larguei meu surf, meu vôlei e minha forma de olhar a vida de maneira simples – sem agonia. Doeu porque sempre dói ter que reconhecer que, após tantos anos, percebo que não deu certo simplesmente esquecer o que nos faz bem, e viver do lado de fora da vida – sim, o capitalismo nos faz viver do lado de fora. Como já anunciado por Guy Debord – vivemos para um ‘espetáculo do ter’ – somos só figurantes de uma grande cena.

Eu não sei se a dor de hoje me fará sair de casa de forma diferente: Estou fazendo provas, preparando aulas, estudando questões de concurso para ensinar Direito aos meus alunos que mal querem aprender algo que os mude – querem mesmo – e tenho que dar a eles isto – algo que lhes coloque nos espetáculo, a chamada ‘estabilidade’ para o ter. Vai ver que, no final de tudo, o que querem mesmo é viver esta grande cena: viver do lado de fora da vida.

E não estou falando que devemos viver de forma hippie – abandonar cuidado com os nossos e planejarmos algo para além da rotina comum e simples. O que estou dizendo é que, na roda vida da vida, quando o carrossel está lá embaixo – a gente vê os problemas maiores do que são, a gente perde o passo e não consegue perceber melhor a vida – tudo fica distorcido

A voz de minha amiga pós-surf. Vê-la dizer que vai voltar a ser ‘quem ela é’: isso trouxe um sentimento bucólico de quando eu conseguia viver com menos e meu carrossel, dentro de mim, ficava lá em cima – somente eu o via, e isto era suficiente.”

Se você não conhece o escritor francês referido, faz como eu: pede na livraria preferida ou baixa o pdf. Sim, e o texto está todo entre aspas porque não é meu. Mas a amiga sou eu.

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A coluna “Aldeia Glocal” é publicada no Tribuna do Ceará, às quartas-feiras, e vai ao ar na Rádio Tribuna BandNews (FM 101.7), às 9h10 e 18:10h.

OBS.: tudo que está entre aspas é da Amiga Professora Filósofa Advogada Hermeneuta Ileide Sampaio de Sousa.

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