Foto: Acervo Instituto Dragão do Mar.

Hoje acordei mais feliz. Despertei com arte: minha filha ensaiando, com entusiasmo, a dança que vai apresentar num evento da escola. Mas, apesar da beleza da coreografia e leveza da menina, o que me chamou a atenção, foi a estampa do figurino. Ela vestia uma camiseta que gritava o desejo dos jovens: “Queremos um Brasil melhor!”

Um misto de alegria e tristeza começou a confundir meus sentimentos e raciocínio. Eu não sabia mais se continuava feliz – pela consciência dos alunos ou se estava deprimida – pela resposta geral da nação: insatisfação. Isso ficou na minha cabeça. E uma pergunta também: como anda nossa esperança?

Depois de deixá-la no colégio, fui ao ‘Fórum Dragão do Mar: por um novo contexto urbano da Praia de Iracema’ e escutei, do Superintendente do Instituto de Planejamento de Fortaleza, Eudoro Santana, que pesquisas alertam 92% da população brasileira insatisfeita. Coincidência ou não, estávamos tentando planejar ações compartilhadas entre Estado e sociedade para uma convivência harmoniosa e satisfatória: especialmente nas redondezas do Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura – uma construção que mistura, como disse o urbanista Fausto Nilo. Um prédio sem muro, que convida todo mundo: você o atravessa e ele atravessa você com arte e cultura.

Para se ter uma idéia através dos números, ano passado foram 1.039 atividades artísticas e culturais que beneficiaram 8.233 artistas: 7.659 (93%) cearenses, 508 (6%) de outros estados e 66 (1%) de outros países, numa programação em sua maioria gratuita (78%), conforme relatório gerencial de 2016 da instituição, que também explica que 19% são pagos e 3%  locações de pauta.

Mas a resposta de Fortaleza, aos estímulos do Centro Cultural, não é 100% positiva. Explico: ano passado, foram 1.835.098 visitantes (onde, em 2007, o público classificado economicamente como C, D e E já  representava cerca de 59% dos que o frequentam, conforme a Revista Eletrônica de Gestão de Negócios da Universidade de Santiago de Compostela, publicação fruto de pesquisa de seu Mestrado em Gestão de Negócios) – uma conquista de ampla visibilidade do mapa cultural nacional (inclusive dado seu largo alcance em população de baixa renda), ao mesmo tempo, situação promotora de uma densidade populacional geradora de problemas. Por quê? Basicamente, porque é muito difícil compartilhar espaço – especialmente com estranhos.

Isso mesmo, viver próximo ao outro pode ser impertinente. Sentimos isso diariamente. Por exemplo: ouvi de alguns participantes do Fórum que estava impossível conviver com os vendedores informais ocupantes de ruas e calçadas. Mas viver próximo ao outro é condição do habitante da urbe. Mais ainda: encargo impossível de escapar.

O sociólogo Bauman, nesse sentido, nos lembra que é comum definir as cidades como lugares onde estranhos se encontram, permanecem próximos e interagem, até mesmo por longo tempo, sem deixar de ser estranhos.

Como essa proximidade é nossa sina, imperativa a experimentação, a tentativa e o teste, na expectativa de encontrar uma maneira que torne a coabitação palatável, a vida primorosa, o convívio salutar e o desenvolvimento sustentável, onde ecologicamente equilibrado, socialmente justo e economicamente viável façam tantas interseções quanto os habitantes do espaço citadino.

Com essa percepção, a pauta do Fórum Dragão contou, nesta manhã de quarta-feira, 30 de agosto, com debates anterior e posterior à  apresentação, pelo arquiteto e compositor já mencionado, de um diagnóstico da região, além de sugestões de um desenvolvimento urbanístico da área, tendo como ideia central, a do Presidente do Instituto Dragão do Mar, Paulo Linhares: estabelecer um escritório com profissionais das mais diversas áreas para pensar a Praia de Iracema e buscar consensos entre os interesses legítimos dos mais diversos atores, sejam donos de restaurantes e bares, ambulantes, empresários em geral, associações, comunidades como a do Poço da Draga, ou seja, todos, independente se entidades públicas e privadas ou mesmo entes despersonalizados.

O encontro, portanto, marca a união de pessoas e esforços contra a gentrificação e a higienização da Praia de Iracema, o fortalecimento das políticas públicas culturais de uso justo do espaço público. O desejo por conectividade. Ou, como disse o coordenador do Laboratório de Estudos da Violência, César Barreira, reflete os anseios por uma integração do que é cultural, com o que é urbanístico e de segurança pública: o que nos leva ao exame do papel das cidades no desenvolvimento econômico feito pela escritora e ativista Jane Jacobs.

Ela aponta a mera densidade da comunicação humana como a causa principal da inquietação própria do meio citadino. E como os habitantes desses espaços não são necessariamente mais inteligentes que outros seres humanos, mas a densidade da ocupação espacial resulta na concentração de necessidades, nas cidades se fazem perguntas que nunca foram feitas, surgem problemas que em outras condições as pessoas nunca tiveram oportunidade de resolver. Daí a necessidade de um lugar onde desejo e técnica se encontrem por uma Fortaleza criativa, um Ceará conectado e um Brasil que queremos.

Estamos insatisfeitos? Sempre. Sem esperança? Jamais.

Urbi et orbi e faça parte da ALDEIA GLOCAL em aldeiaglocal.com.br, afinal, quanto mais global, mais local.

Informações:

Encaminhamentos do Fórum Dragão do dia 30 de agosto de 2017: uma nova data – a segunda reunião (dia 29 de setembro, 15h, para eleição de um comitê que participe ativamente do Plano Fortaleza 2040 – especificamente do plano setorial que abrange a Praia de Iracema) e apresentação do ‘Conselho da Praia de Iracema’ criado pela Secretaria Municipal do Turismo (que inicia um Plano de Ação para a região 17h, dia 31 de agosto, no Centro Cultural Belchior), além de estimulação à  geração de soluções criativas para questões que envolvam a Praia de Iracema, porque, como lembrou Fausto, elas nascem de paradoxos.

A coluna “Aldeia Glocal” é publicada no Tribuna do Ceará, às quartas-feiras, e vai ao ar na Rádio Tribuna BandNews (FM 101.7), às 9h10 e 18:10h.

 

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