Foto: Flávia Castelo.

Quando eu ministrava aula de Direito Urbanístico, conheci um livro que imediatamente trabalhei com os meus alunos: ‘Calçada, o primeiro degrau da cidadania urbana’. Achei o título lindo e, mais, percebi que ele, sozinho, resumia muitas horas de discussão em sala de aula.

Um arquiteto e um engenheiro eletricista, habituados a fazer trajetos como casa/trabalho/casa a pé na cidade de Recife, reuniram histórias pessoais, documentação, ilustração, regulação e análise da vida citadina, numa demonstração de amor à cidade onde concluíram que sobram leis, mas faltam calçadas.

Acrescento: Falta amor às calçadas. Faltam cadeiras na rua. E laços sociais.

Com os desenhos que nos orientava ao passo-a-passo para o comprometimento com o outro e o meio, uma amiga me contou a história de uma espanhola que mora em São Paulo, desde 2011, e defende que lugar de criança é na rua.

Explico: Irene Quintás, mãe de dois meninos e com experiência urbanística nas prefeituras de Barcelona e São Paulo, desenvolve oficinas em que pede para crianças desenharem o caminho de casa para a escola: as motorizadas encaixam tudo em ruas, carros e semáforos, enquanto as pedestres desenham seres humanos, elementos naturais.

Ela diz que hoje em dia, a rotina das crianças é um conjunto de caixinhas: elas estão na caixinha-casa, entram na caixinha-carro ou caixinha-van, vão para a escola, que é a caixa maior, e geralmente ‘sobram’ apenas dez minutos para comer e o mesmo tempo para brincar. Depois, voltam para casa e não saem, porque perigoso ou por falta de opção. Nessa rotina de apenas dez minutos livres, o que temos são problemas como sedentarismo, obesidade e o preconceito inerente à criança que não anda e não convive com moradores de rua, com situações e pessoas de cores diferentes, por exemplo.

Lugar de criança é na rua. Porque encaixadas, envoltas no mito do ‘admirável mundo novo’, elas deixam de ver beleza nos lugares que os outros habitam. Reproduzem castelos, mas solitários.

Neste caso, inverte-se a máxima pré-socrática: o homem e o rio serão sempre os mesmos.

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A coluna “Aldeia Glocal” é publicada no Tribuna do Ceará, às quartas-feiras, e vai ao ar na Rádio Tribuna BandNews (FM 101.7), às 9h10 e 18:10h.

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