Foto: Flávia Castelo

Abril abriu com mentira e fechou com muita dor. De trás pra frente desse recorte temporal que (des)organiza nossas vidas, acordei em retrospectiva: Dez e pouco da manhã do último dia do mês, recebi uma mensagem de um amigo. “Belchior morreu”. Curta, grossa e transbordando sofrimento, a notícia me deu conta que foi coisa do coração. Tirando pelo que senti na hora, não tive a menor dúvida.

Antes de qualquer tributo e, claro, tomada pelo saudosismo inevitável, pensei um pouco sobre o que mais tarde o Professor Boaventura de Sousa Santos resumiu: “vivemos em sociedades que são politicamente democráticas mas socialmente fascistas”. Pensei na romantização das composições do rapaz latino-americano, em detrimento dos toques políticos que ele nos dava; pensei que não estamos num regime ditatorial para sustentar a desculpa de não haver cobertura jornalística de um evento como o do dia 28 e que esse silêncio é muito mais grave do que já foi no passado; pensei no impacto dessa Greve Geral nas reformas trabalhista e previdenciária; pensei nos quilombolas atacados; pensei na sobreposição dos interesses do agronegócio em relação aos direitos constitucionais dos índios; pensei na proposta de pagar trabalhador rural com alimento e moradia; pensei na iminência de uma III Guerra Mundial – na tensão entre Coreia do Norte e EUA – que parece nem existir; pensei nessas ‘coisas invisíveis’ e em como quando os olhos não vêem, o coração não sente. Fora da vista, fora da mente. Mente. Para o povo seguir em frente.

Antes mesmo do quarto mês do ano começar, antes do primeiro de abril, a primeira mentira: foi noticiado que o número de confirmações de Chikungunya, Dengue e Zica no Ceará aumentou em 722%. Passei dez dias limitada pelos sintomas da picada do mosquito, vi hospitais lotados – aqueles mesmos que dizem que o melhor remédio é descansar e que deixam os pacientes impacientes um dia inteiro, dois, três, numa sala de espera. Sim, estou falando do sistema particular. E dos médicos que não dão a mínima se você confirma (ou não) em laboratório a suspeita clínica baseada nos sintomas. Lugares que aceitam a vedação dos planos de saúde à sorologia para Zica. ‘O plano só autoriza se você estiver grávida’, sentencia a recepcionista sobre a negativa do exame que diria o que você teve. Trocando em miúdos, não se engane: os números assustam, mas ouso dizer que estão aquém do problema enfrentado. Nosso compromisso também. Do Poder Público e da Coletividade.

Esperando consulta e resultado de exames, também pensei nas prisões e solturas que fortalecem o sistema binário, dicotômico, na qual estamos insertos. Pensei na missão institucional do STF  – nosso Supremo Tribunal Federal. E, discutindo as incertezas da vida, na Praia do Futuro, com duas amigas, ouvi de uma delas: “menina, como você está pessimista!”. Consciente da constatação, não deixei de ter um choque ao anúncio – mesmo cauteloso – de que já faz tempo que minha balança pende mais para o pessimismo da razão do que para o otimismo da vontade. E olha que eu ainda não estava com as dores provocadas pela Chikungunya. Finalmente, pensando no 1% da população que concentra metade da riqueza planetária, e na rejeição de 90% ao Governo Temer, voltei a Belchior e lembrei que nessa alucinação de suportar o dia-a-dia, “amar e mudar as coisas me interessa mais”. E você, acha que viver é melhor que sonhar?

Urbi et orbi e faça parte da ALDEIA GLOCAL em aldeiaglocal.com.br, afinal, quanto mais global, mais local.

A coluna “Aldeia Glocal” é publicada no Tribuna do Ceará, às quartas-feiras, e vai ao ar na Rádio Tribuna BandNews (FM 101.7), às 9h10 e 18:10h.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *