Foto: Flávia Castelo

Era uma noite de sexta-feira. Minha prima passou lá em casa e mesmo empolgadas com tudo o que tínhamos para conversar naquele ‘aqui e agora’, o mundo virtual teve a sua vez: “Me empresta o teu celular? Quero checar umas coisas e o meu está com problemas de visualização. Qual é a senha?” Entreguei o aparelho dizendo: “Paciência”. Ela não acreditou. Nem pensou que pudesse ser uma repreensão por trocar a vida real pela a da Internet e disse: “A tua senha é ‘paciência’? A minha também!”. Caímos na gargalhada, mas não na tentação de contar para as nossas mães. Até agora. Troca a senha, Luana.

Naquela mesma noite, foi só ela sair de casa, que me dei conta de quem cantava ao fundo. Lenine. A música? Acredite se quiser: ‘Paciência’. E foi ouvindo “Mesmo quando tudo pede um pouco mais de calma. Até quando o corpo pede um pouco mais de alma. A vida não para”, que comecei a refletir sobre a conotação religiosa que a palavra ‘alma’ apresenta para muitas pessoas. Mas não pretendo insistir nela, nem rejeitá-la. A escolha é de cada um: seja dar ouvidos ou ignorar.

Quando eu digo que uma pessoa tem ‘alma’ estou falando da capacidade de pensar e de imaginar que nos torna humanos e que faz das nossas relações experiências ricas e complexas e não meramente manipuladoras e utilitárias. Algo bem diferente do que parece que estamos procurando: bens que nos protegem, satisfazem e consolam, ou o que o educador indiano Tagore chama de ‘cobertura material’. Parece que estamos nos desligando das sutilezas do mundo. ‘Viva o consumo. De coisas e pessoas.’ Depois a gente descobre quem ganha com isso.

Martha Nussbaum, professora emérita de Direito e Ética da Universidade de Chicago, diz que quando vivemos em sociedade, se não aprendemos a enxergar tanto o eu como o outro “imaginando em ambos capacidades inatas de pensar e sentir, a democracia está fadada ao fracasso, porque ela se baseia no respeito e na consideração, e estes, por sua vez, se baseiam na capacidade de perceber os outros como seres humanos, não como simples objetos”. Simples objetos… …parece que não são apenas os humanos que tratamos assim. Olhe ao redor. Você está vendo a sombra de uma árvore, água limpa e corrente ou ouvindo o canto de um pássaro? Mas que perguntas mais sem sentido. Afinal, qual a utilidade disso?

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4 thoughts on ““Paciência”

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