Cada palavra do filósofo Peter Sloterdijk é tão bonita quanto a obra de arte que o inspirou, em seu texto introdutório de “Esferas I”. Bonita e pertinente. Ele narra, a partir da tela a óleo “Bubbles”, de Sir John Everett Millais (1829-1896), como a criança acompanha com os olhos as bolhas de sabão que sopra, para o céu, através de uma argola. Fala que primeiro vem um enxame caótico de bolinhas cintilantes jorradas para o alto ao léu. E que, numa segunda tentativa, já aparece um balão oval, maior e trêmulo, como se estivesse receoso de viver, que acaba sendo levado pela brisa. Dá pra imaginar “a esperança da criança extasiada”?

 

Em seguida, o autor ‘confunde’ a criança com a criação (dela), como se a própria criatura deslizasse com sua bolha mágica no espaço exterior, confundindo, também o espectador, ao deixar escapar um som, misto de suspiro e júbilo, quando, após voo oscilante e duradouro, a bolha rebenta.

 

O escritor acredita que o insuflador fica fora de si enquanto existir aquela esfera – que depende de todo seu envolvimento e atenção – como se falhas no acompanhamento ou “qualquer abatimento na esperança e apreensão em seu percurso” condenasse a coisa reluzente a um naufrágio prematuro, mesmo sendo este inevitável e independente de você. Digo, da criança.

 

Ele continua, argumentando que quando a bolha se desfaz, naquele lugar, corpo e alma se separam, ficam sozinhos e perdidos (um do outro) – o que dura só um segundo porque a alegria da brincadeira retorna e toma conta da melancolia, como o impulso cruel e eficaz de um jogo que se prolonga incansavelmente: novamente bolhas ao léu, criança acompanhando, receio, anseio, euforia e paixão.

 

Fico me perguntando quem primeiro concebeu essa idéia de que o mundo não passa de uma bolha de sabão “de um alento que tudo engloba.” E se tudo é por acaso. Mas acho Sloterdijk certeiro ao lembrar que “O que são as esperanças frustradas senão motivo para novas tentativas?”

 

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