Foto: acervo pessoal.

Arte e Pensamento. Este é o nome do seminário que tive a oportunidade de participar, pela segunda vez, no Cariri. Ontem, último dia de discussões sobre um cenário de transformação e novas perspectivas da região, a palestrante Adélia Borges chamou a atenção para o fato de que todos iniciaram suas narrativas a partir das relações afetivas com o lugar. Ela mesma contou sua história, que celebra o Nordeste, no Brasil e no mundo, a partir da democratização do design.

A mediadora, Carolina Campos, rememorou sua primeira visita ao Padre Cícero, ao contar que, quando criança, sua mãe a levantou pela cintura e disse: faça três pedidos. Fiquei imaginando se a pequena desejou viver naquele “mar seco do cretáceo que pode respirar”. Mas o que sei mesmo é que ela está lá, com seu marido e também Professor Pablo Manyer. Ele planeja um laboratório de cromologia local e está escrevendo um artigo sobre o vermelho do Soldadinho do Araripe, espécie de ave, em perigo crítico de extinção e símbolo da preservação da Floresta Nacional.

Fabiano dos Santos, Secretário de Cultura do Estado, emocionou a plateia lembrando quando, aos dez anos, se perdeu na Romaria das Candeias, em Juazeiro do Norte. E Alemberg Kindins, “nascido no Crato só para ser importante”, se instalou em Nova Olinda, na casa de seus pais, e fundou a Casa Grande, um espaço de contos, encontros e, principalmente, de acreditar nas crianças como protagonistas da cidade. É lá que ele (en)canta “O povo do Crato”.

Foram dois dias de aprendizado, onde me apaixonei, novamente, ao reviver minha relação com a região, iniciada há 20 anos (quando iniciei a Faculdade de Direito). O que me trouxe uma maior identificação com o discurso de Eduardo Saron, diretor do Itaú Cultural. Ele destacou que falamos em desenvolvimento, sem, necessariamente, nos darmos conta do que deixamos para trás, lembrando que desenvolvimento pressupõe priorizar algumas coisas em detrimento de outras e nos motivando a compartilhar mais experiências que nos direcione ao desenvolvimento com envolvimento. Como busca fazer o Cais do Sertão ao reverenciar Luiz Gonzaga. Não é mesmo, Gilberto Freyre Neto?

O seminário, ainda, nos presenteou com a Carta do Cariri. Intelectuais, pesquisadores, artistas, gestores, produtores e instituições materializaram o que pensaram para aquele lugar, enquanto patrimônio cultural e natural, numa perspectiva de bio-etno-  diversidade, ao propor bases para o debate e construção de políticas públicas locais, tão bem trabalhadas pelo Presidente do Instituto Dragão do Mar, Paulo Linhares.

E eu voltei para casa com o Cariri no coração, contando as horas para uma nova visita a seu Espedito Seleiro, participar dos rituais indígenas dos Ynôcu-Inins, flanar (e/de)vagar nos geossítios, admirar as esculturas em madeira de Mestre Noza e as Xilogravuras e Cordeis da Lira Nordestina.

Motivada pela experiência no Cariri, pergunto: você se (des)envolve com Fortaleza?

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A coluna “Aldeia Glocal” é publicada no Tribuna do Ceará, às quartas-feiras, e vai ao ar na Rádio Tribuna BandNews (FM 101.7), às 9h10 e 18:10h.

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